Uma investigação da Polícia Civil do Tocantins revelou indícios de um suposto esquema de desvio de recursos públicos envolvendo o Tocantinópolis Esporte Clube (TEC). De acordo com relatório policial, o atual presidente do clube, Leandro Pereira Sousa, e o ex-gestor Wagner Pereira Novais teriam recebido juntos mais de R$ 3,1 milhões provenientes das contas da equipe entre os anos de 2020 e 2024.
O documento integra as apurações da Operação 2º Tempo, deflagrada nesta quinta-feira (12), que cumpriu oito mandados de busca e apreensão em Tocantinópolis. Entre os alvos estão endereços ligados ao prefeito do município, Fabion Gomes (PL), ao presidente do clube Leandro Pereira, que também é sargento da Polícia Militar, ao ex-gestor Wagner Novais e ao ex-prefeito Paulo Gomes (PL).
As diligências ocorreram em residências dos investigados, em setores da prefeitura e na sede do clube. Em uma das buscas, os policiais apreenderam R$ 8 mil em dinheiro.
Investigação aponta movimentações financeiras suspeitas
As apurações começaram após o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificar movimentações consideradas atípicas envolvendo dirigentes do clube. Segundo a Polícia Civil, foram detectados saques em dinheiro e transferências para contas pessoais e de terceiros.
O relatório também aponta que Wagner Pereira Novais teria exercido forte influência na gestão do clube entre 2017 e 2024. Somente entre janeiro de 2022 e 2024, ele teria movimentado aproximadamente R$ 16,9 milhões em suas contas bancárias.
Parte desses valores foi considerada suspeita pelos investigadores. No mesmo período, Wagner teria transferido R$ 1.782.424,50 para Leandro Pereira, além de repasses a outras pessoas físicas, incluindo R$ 58 mil enviados a uma vizinha, segundo os dados da investigação.
Três frentes do suposto esquema
De acordo com a Polícia Civil, o esquema investigado teria três frentes principais.
A primeira envolve a autorização de repasses de recursos públicos ao clube por gestores municipais, mesmo após decisões do Tribunal de Contas do Estado do Tocantins apontarem irregularidades nesse tipo de transferência.
A segunda linha da investigação aponta que o clube teria sido utilizado como estrutura de fachada, com produção ou alteração de documentos — como atas e recibos — para dar aparência de legalidade a transferências financeiras que não teriam relação comprovada com atividades esportivas.
Já a terceira frente investigada envolve a redistribuição dos valores após a entrada nas contas da entidade esportiva. Segundo a polícia, os recursos teriam sido enviados para contas pessoais de dirigentes e terceiros, além de saques em espécie que dificultariam o rastreamento da origem do dinheiro.
O prejuízo estimado aos cofres públicos ultrapassa R$ 5,14 milhões.
Justiça já havia suspendido repasses
Em dezembro de 2025, uma decisão da 1ª Vara Cível de Tocantinópolis determinou a suspensão dos repasses municipais ao clube e o bloqueio de bens do TEC, do prefeito Fabion Gomes e do ex-prefeito Paulo Gomes.
As investigações indicam que o fluxo de repasses ao clube remonta a 2009, período em que o Tribunal de Contas do Estado já havia apontado irregularidades na transferência de recursos públicos para a entidade esportiva.
O que dizem os citados
Em vídeo divulgado nas redes sociais, o prefeito Fabion Gomes afirmou que os pagamentos ao clube foram suspensos durante sua gestão por decisão judicial. Segundo ele, os repasses realizados em administrações anteriores foram feitos com base em uma lei municipal.
O atual presidente do clube, Leandro Pereira, declarou na quinta-feira (12) que o TEC não possui convênio com a prefeitura e que não recebe recursos municipais desde que assumiu a presidência, em janeiro de 2025.
Já o ex-prefeito Paulo Gomes afirmou que equipes esportivas do interior dependem do apoio financeiro do poder público para se manterem. Segundo ele, enfraquecer financeiramente o clube seria uma forma de comprometer a competitividade de uma das instituições esportivas mais relevantes do estado.
Wagner Pereira Novais foi procurado pela reportagem, mas não havia se manifestado até a última atualização desta matéria.
Polícia Militar acompanha o caso
Em nota, a Polícia Militar do Tocantins informou que está ciente da investigação envolvendo o policial militar que preside o clube. A corporação afirmou que, após notificação formal, adotará os procedimentos administrativos necessários para apurar os fatos.
A instituição também destacou que não compactua com qualquer conduta que contrarie a legalidade, a ética e os princípios da atividade policial.
A Operação 2º Tempo mobilizou 34 policiais civis, entre investigadores e peritos, responsáveis pela coleta de documentos, registros contábeis e dispositivos eletrônicos que poderão auxiliar no avanço das investigações. O nome da operação faz referência ao “segundo tempo” de uma partida de futebol, simbolizando a continuidade do combate a esquemas ilícitos que, segundo a polícia, teriam utilizado o esporte como instrumento para práticas ilegais.













