Trocas de mensagens obtidas pela PF revelam que Paulo César Lustosa usava a relação com a ex-esposa e o governador Wanderlei Barbosa para intermediar contratos fraudulentos durante a pandemia. Esquema desviou mais de R$ 73 milhões.
PF revela esquema milionário no coração do governo tocantinense
As investigações da Polícia Federal, no âmbito da Operação Fames-19, escancararam um esquema de corrupção que, segundo o Superior Tribunal de Justiça (STJ), era sustentado por laços pessoais e influência direta dentro do Palácio Araguaia. A principal figura apontada pela PF como operador do grupo é Paulo César Lustosa Limeira, ex-marido da primeira-dama Karynne Sotero, que, segundo os investigadores, usava sua proximidade com ela e com o governador Wanderlei Barbosa (Republicanos) para intermediar contratos fraudulentos e direcionar licitações.
Mensagens revelam interferência direta com o governador
Entre os documentos apreendidos, a PF encontrou mensagens em que Lustosa pressiona o próprio governador para liberar pagamentos a uma empresa fornecedora de livros contratada sem licitação. No diálogo, ele afirma que o material já foi entregue e que o pagamento estava sendo travado. Em resposta, Wanderlei se compromete a resolver a situação pessoalmente.
O contrato em questão, no valor de mais de R$ 3 milhões, foi pago semanas após a conversa. Segundo a decisão do STJ, os diálogos foram apagados posteriormente — o que levanta suspeitas sobre a intenção de ocultar provas. “Há inúmeros diálogos contemporâneos aos eventos, entre Wanderlei Barbosa e Paulo César Lustosa, todos eles apagados”, escreveu o ministro Mauro Campbell.
Esquema teria desviado R$ 73 milhões em cestas básicas e frangos
A primeira fase da operação revelou que, entre 2020 e 2021, foram firmados contratos que somam mais de R$ 97 milhões para fornecimento de cestas básicas e frangos congelados, em meio ao estado de emergência da pandemia de Covid-19. Deste total, a PF estima que mais de R$ 73 milhões foram desviados por meio de sobrepreço, empresas de fachada, direcionamento de licitações e pagamentos indevidos.
Segundo a investigação, Lustosa participava ativamente da montagem dos processos licitatórios, de forma a beneficiar empresas ligadas à organização criminosa. Em troca, teria recebido repasses diretos e movimentado grandes quantias em espécie — o que reforça os indícios de lavagem de dinheiro.
Afastamento do governador e da primeira-dama
Com base na gravidade dos fatos e no envolvimento direto do casal, o STJ determinou o afastamento do governador Wanderlei Barbosa e da primeira-dama Karynne Sotero Campos por 180 dias. A decisão foi proferida pelo ministro Mauro Campbell, que também determinou buscas e apreensões em quatro estados: Tocantins, Paraíba, Maranhão e Distrito Federal.
A primeira-dama exercia o cargo de secretária extraordinária de Participações Sociais, e, segundo o STJ, foi peça-chave na intermediação dos contratos irregulares. “Todas as contratações dependiam da boa vontade do Poder Executivo, propiciada pela intermediação conduzida por Karynne”, afirma a decisão.
Reações dos envolvidos
Em nota, o governador Wanderlei Barbosa afirmou que recebe a decisão “com respeito às instituições”, mas considera a medida “precipitada”, alegando que os fatos ocorreram quando ainda era vice-governador, sem responsabilidade sobre os gastos. Já a primeira-dama declarou que irá comprovar sua total ausência de participação nos fatos investigados.
A defesa de Paulo César Lustosa ainda não se pronunciou oficialmente.
Nova frente de investigação: livros e negociações em 2024
A atuação de Lustosa, no entanto, não se restringiu ao período emergencial da pandemia. Em 2022 e também em 2024, ele continuou atuando como representante de empresas interessadas em contratos com o governo. Em mensagens recentes, o lobista reclama da dificuldade em fechar novos contratos, citando um “alto retorno” que estaria sendo exigido — termo que, segundo os investigadores, pode indicar pedidos de propina.
Patrimônio incompatível e ocultação de valores
Durante as apurações, a PF também identificou sinais de enriquecimento ilícito. Paulo César teria ocultado parte dos recursos desviados por meio da compra de gado, imóveis de alto padrão e pagamentos de despesas pessoais, de acordo com os investigadores. Ele também movimentou, entre 2020 e 2022, mais de R$ 1,3 milhão em repasses de empresas investigadas, além de realizar saques em espécie que somam R$ 665 mil, prática comum em esquemas de lavagem de dinheiro.
Entenda a Operação Fames-19
Nome da operação: Fames-19 (referência à pandemia de Covid-19 e ao uso indevido de verba pública em ações assistenciais)
Deflagração: Segunda fase realizada em 3 de setembro de 2025
Alvo: Desvios em contratos de cestas básicas, frangos congelados e outros serviços durante a pandemia
Prejuízo estimado: R$ 73 milhões
Mandados: 51 mandados de busca e apreensão em quatro estados
Envolvidos: Governador, primeira-dama, empresários e operadores ligados ao governo
Próximos passos
As investigações continuam no âmbito do Superior Tribunal de Justiça, com apoio do Ministério Público Federal. A tendência é que novas denúncias sejam formalizadas nos próximos meses, com base no material apreendido, nas conversas interceptadas e nas movimentações financeiras detectadas.
A Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal agora trabalham para aprofundar a apuração dos patrimônios dos envolvidos, possíveis laranjas e lavagem de ativos, além de tentar recuperar os valores desviados.












