O governador do Tocantins, Wanderlei Barbosa (Republicanos), protagonizou nesta quinta-feira (26), em Palmas, um dos discursos mais duros e politicamente carregados de seu mandato. Diante de mais de mil vereadores reunidos no Encontro Estadual promovido pela ASCAM, o chefe do Executivo abandonou o tom institucional e adotou uma postura de enfrentamento, marcada por desabafo, acusações diretas e recados públicos a aliados e adversários.
O ponto central da fala foi a crise desencadeada pela Operação Fames-19, conduzida pela Polícia Federal, que investiga o desvio de mais de R$ 70 milhões destinados à compra de cestas básicas durante a pandemia de Covid-19. Ao tratar do assunto, Wanderlei elevou o tom e fez, pela primeira vez, uma revelação direta sobre a origem política de decisões que hoje estão sob investigação.
Segundo o governador, a indicação do então secretário da Secretaria do Trabalho e Assistência Social (Setas) não partiu dele, mas sim do hoje deputado federal Toinho Andrade.
“Eu não era governador, era vice. Quem indicou o secretário foi Toinho Andrade. É a primeira vez que estou dizendo isso”, afirmou, ao citar o nome de José Messias Alves de Araújo.
A declaração insere um novo elemento no cenário político e evidencia o rompimento entre os dois, antes aliados. Nos bastidores, Toinho foi um dos primeiros a se afastar do grupo de Wanderlei após o período de crise e a se aproximar do vice-governador Laurez Moreira (PSD), que chegou a assumir o comando do Estado durante o afastamento.
Desafio à investigação e recado à Assembleia
Em tom de desafio, Wanderlei afirmou não temer investigações e disse que a Assembleia Legislativa pode abrir uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar o caso.
“Pode fazer a CPI. Se eu mereço um impeachment, pode votar”, declarou.
Mesmo com o discurso firme, o governador conta atualmente com maioria na Casa, sustentada por partidos como Republicanos, PP, PL e União Brasil, além de aliados em outras siglas.
Durante a fala, ele também rebateu rumores de acordos políticos para seu retorno ao cargo e atribuiu exclusivamente ao Supremo Tribunal Federal (STF) a decisão que o reconduziu ao governo. “Quem me trouxe de volta foi o Supremo”, pontuou.
Recados diretos e clima de confronto
O discurso foi permeado por críticas a adversários e respostas a declarações recentes. Wanderlei negou episódios envolvendo o deputado federal Vicentinho Júnior e cobrou respeito público. Também enviou um recado ao presidente da Assembleia Legislativa, Amélio Cayres, ao afirmar que eventuais processos de impeachment não precisam ser barrados.
Ao longo da fala, reforçou sua defesa, afirmando que nunca participou de irregularidades na compra ou distribuição de cestas básicas.
“Fui tirado do meu mandato sem nunca ter comprado uma cesta básica”, disse.
Evento vira palco de disputa política
O que era para ser um encontro institucional se transformou em um verdadeiro termômetro da pré-campanha no Tocantins. O ambiente foi marcado por manifestações da plateia, discursos com indiretas e sinais claros de divisão dentro do próprio grupo político.
O senador Eduardo Gomes tentou reduzir a tensão ao adotar um tom conciliador. “Não sou correio para ficar levando recados”, afirmou, em referência às trocas públicas entre lideranças.
Já a senadora Professora Dorinha fez um apelo por respeito durante o processo eleitoral, destacando limites na disputa política. Em outro momento, Amélio Cayres reforçou sua posição ao dizer que o governador não tem obrigação de apoiá-lo, evidenciando o distanciamento interno.
Pré-campanha em ebulição
Ao final, ficou evidente que o cenário político no Tocantins entrou em uma fase de alta tensão. As divergências, antes restritas aos bastidores, agora são públicas e tendem a se intensificar com a aproximação das definições partidárias para 2026.
O discurso de Wanderlei Barbosa não apenas respondeu às acusações, mas também redesenhou o tabuleiro político, expondo fissuras dentro do próprio grupo e antecipando um período de disputas ainda mais acirradas no Estado.













