A Operação Nêmesis, deflagrada nesta quarta-feira, 12, pela Polícia Federal, trouxe novas revelações sobre o envolvimento de deputados do Tocantins em esquemas de obstrução à investigação de desvio de verbas durante a pandemia. A ação, autorizada pelo ministro Mauro Campbell Marques do Superior Tribunal de Justiça (STJ), aprofundou os desdobramentos da Operação Fames-19, que apura possíveis crimes envolvendo a gestão de recursos públicos. A nova fase da investigação revelou a reação de parlamentares ao saberem da operação, com alguns deles sendo pegos de surpresa.
A avaliação de muitos deputados é de que apenas o núcleo familiar do governador afastado Wanderlei Barbosa tinha conhecimento prévio da operação policial, enquanto outros aliados políticos, inclusive membros da base governista, foram surpreendidos e não tiveram tempo para apagar registros ou se desfazer de provas. Essa percepção se baseia no conteúdo da decisão de Campbell, que revela que Thomas Jefferson, ex-secretário de Parcerias e Investimentos, se reuniu com Wanderlei Barbosa na véspera da operação, tomando cuidados para evitar rastros digitais, como não fazer chamadas ou enviar mensagens.
Depoimentos e apreensões: o que a PF encontrou
Na segunda fase da Operação Fames-19, no dia 3 de setembro, vários deputados da base aliada do governo foram alvos de mandados de busca e apreensão. O deputado Léo Barbosa (Republicanos), filho do governador afastado, foi um dos primeiros a ser abordado. A operação em sua residência ocorreu sem grandes intercorrências. Segundo o relatório da PF, Léo estava sozinho, entregou seu celular, mas se recusou a fornecer a senha de desbloqueio. No entanto, nada de relevante foi encontrado em sua casa.
Amélio Cayres: dinheiro, bens e suspeitas de lavagem de dinheiro
A operação teve momentos mais tensos na casa de Amélio Cayres, presidente da Assembleia Legislativa do Tocantins (Aleto) e aliado histórico de Wanderlei Barbosa. A PF apreendeu R$ 25 mil em espécie, dentro de uma sacola com o nome da Assembleia, e encontrou um carro oficial do Legislativo sendo usado pelo filho do deputado, Raul Cayres, que não era servidor público. Raul afirmou que o dinheiro era seu, mas não conseguiu comprovar a origem. Além disso, documentos indicaram suspeitas de ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro envolvendo Amélio Cayres, com registros de imóveis e movimentações financeiras em nome de familiares e terceiros, mas bancados diretamente pelo parlamentar.
Jorge Frederico e a apreensão de valores e bens
A operação também envolveu o deputado Jorge Frederico, que estava em Araguaína no dia da ação. Em sua residência, a PF apreendeu R$ 36 mil em espécie, € 1.855, e dois veículos de alto valor, além de duas agendas com anotações que são agora analisadas como potenciais provas de envolvimento em esquemas ilícitos. A PF relatou que Jorge Frederico colaborou durante a ação, sem resistência.
Valderez Castelo Branco e Lázaro Botelho: resistências e cofre com dinheiro
Na residência do casal Valderez Castelo Branco e Lázaro Botelho, também em Araguaína, os policiais enfrentaram resistência para acessar o imóvel. Após forçar a entrada, os agentes encontraram R$ 698.050 em espécie, guardados em um cofre, junto com perfumes e suplementos alimentares. O dinheiro foi parcialmente depositado judicialmente e parte encaminhada à perícia papiloscópica. Além disso, três veículos de luxo foram apreendidos em nome de Lázaro.
Olyntho Neto e Valdemar Júnior: apreensões e bens de luxo
A operação seguiu para a casa do deputado Olyntho Neto, também aliado da base governista, onde foram encontrados R$ 64.450 em espécie, US$ 1.000, 4.970 euros, além de joias e relógios de luxo, e uma arma de fogo. Já no caso de Valdemar Júnior, a PF apreendeu R$ 4.105 dentro de um veículo oficial da Assembleia Legislativa e mais R$ 570 em espécie, além de relógios de grife e uma antena Starlink.
Cláudia Lelis: presença em local suspeito e a nova fase da investigação
A deputada Cláudia Lelis (PV) também foi alvo da nova fase da Operação Nêmesis, apesar de não ter sido mencionada em investigações anteriores. No dia da Operação Fames-19, as buscas em sua casa resultaram apenas na apreensão de dois celulares e documentos. No entanto, a nova fase da operação envolve um episódio em que Cláudia foi flagrada em câmeras de segurança na residência da sogra de Wanderlei Barbosa, no mesmo endereço apontado pela PF como ponto de partida para a eliminação de provas. A presença da deputada no local foi confirmada por laudo facial pericial. Cláudia foi citada nesta nova fase devido a esse envolvimento, embora não haja evidências de que ela tenha sido avisada sobre a operação, como aconteceu com outros aliados do governador afastado.
Reações dos parlamentares e do governador
As reações dos envolvidos foram imediatas. O governador afastado Wanderlei Barbosa se manifestou por meio de uma nota, expressando estranheza com a operação e reafirmando sua disposição para colaborar com as investigações. Léo Barbosa, por sua vez, declarou que está colaborando com as apurações e reafirmou sua confiança na justiça. Cláudia Lelis também se mostrou tranquila e confiante de que a verdade será esclarecida, embora tenha expressado surpresa com a operação, especialmente por ter sido baseada em sua visita à sogra de Wanderlei.
Enquanto as investigações continuam, a Operação Nêmesis segue revelando detalhes sobre os vínculos entre os deputados e o esquema de obstrução e desvio de recursos públicos. A operação também reforça a expectativa sobre os próximos passos das autoridades, com o desdobramento das apreensões e novos depoimentos de parlamentares e aliados políticos.













