Um estudo técnico elaborado por equipes da Secretaria do Planejamento (Seplan) e da Secretaria de Estado da Saúde (SES) revelou que a administração interina comandada por Laurez Moreira (PSD) divulgou informações imprecisas ao anunciar um suposto rombo de R$ 688 milhões deixado pela gestão do governador Wanderlei Barbosa (Republicanos). O valor, segundo os técnicos, foi apresentado de forma distorcida à população e aos órgãos de controle e acabou servindo de base para a decretação de um estado de calamidade na saúde sem respaldo técnico consistente.
De acordo com o levantamento, as despesas efetivamente empenhadas e não quitadas até setembro de 2025 somavam R$ 315 milhões — montante 54,2% inferior ao divulgado publicamente pelo governo interino. Além disso, outros R$ 150 milhões incluídos na conta não são reconhecidos oficialmente pelo Estado, por se tratarem de obrigações prescritas, sem comprovação documental ou oriundas de registros considerados inconsistentes.
Desse total contestado, R$ 88,9 milhões referem-se a períodos entre 2015 e 2019; R$ 25,1 milhões correspondem aos anos de 2020 a 2024; e R$ 36,3 milhões decorrem de lançamentos da Superintendência de Aquisição e Estratégias de Logística (SAEL) que não possuem validação formal, conforme apontam os técnicos.
O estudo também critica a inclusão, classificada como equivocada, da projeção de despesas dos meses de outubro a dezembro de 2025, estimadas em R$ 353,7 milhões, tratadas como se fossem dívidas já existentes. Esse número foi apresentado durante coletiva de imprensa realizada no dia 6 de novembro, quando o governo interino anunciou o decreto de emergência na saúde. O parecer técnico que embasaria a medida, no entanto, não foi divulgado à época.
Segundo os responsáveis pelo levantamento, o objetivo inicial do estudo era outro: demonstrar o descompasso histórico entre os recursos repassados pela União para a saúde e os gastos efetivamente realizados pelo Estado. A intenção era fortalecer o pleito junto ao governo federal para a recomposição anual de cerca de R$ 200 milhões, necessários para equilibrar o financiamento do sistema.
Os técnicos destacam ainda que o Tocantins convive há pelo menos dez anos com uma rolagem anual aproximada de R$ 215 milhões na área da saúde, cenário que não se restringe à atual ou à gestão anterior. Desde 2022, o governo estadual vinha defendendo, junto à União, a necessidade de compensação desse déficit estrutural.
Diante da repercussão, um grupo de trabalho instituído pelo governador Wanderlei Barbosa deverá aprofundar a análise dos números e encaminhar eventuais irregularidades aos órgãos de controle. As informações também serão remetidas à Assembleia Legislativa do Tocantins, uma vez que dados considerados distorcidos foram utilizados como fundamento para a decretação da emergência na saúde pública do Estado.













