O governador afastado do Tocantins, Wanderlei Barbosa (Republicanos), e a primeira-dama Karynne Sotero utilizaram, em diversas ocasiões, um jatinho executivo bancado com recursos públicos para realizar viagens com finalidades turísticas e particulares. Documentos obtidos com exclusividade pela TV Anhanguera revelam os destinos, passageiros e valores pagos pelo Governo do Estado para deslocamentos que beneficiaram familiares e aliados políticos do casal.
O uso da aeronave ocorre no contexto de uma investigação mais ampla. Wanderlei e Karynne foram afastados dos cargos por 180 dias, por decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), em 3 de setembro de 2025, no âmbito da segunda fase da Operação Fames-19. A ação apura desvios de recursos públicos durante a pandemia de Covid-19, especialmente na aquisição de cestas básicas.
Viagens turísticas com recursos públicos
Em janeiro deste ano, após férias no litoral nordestino, o casal estendeu a viagem aos Lençóis Maranhenses. No retorno a Palmas, em 13 de janeiro, a aeronave foi usada por Wanderlei, Karynne e familiares. A viagem custou R$ 141.450,00 aos cofres públicos.
Dez dias depois, o jatinho voltou a ser usado por membros do governo e pelo filho do governador, Rérison Castro, atual superintendente do Sebrae Tocantins, mas sem vínculo formal com o Estado. O trajeto de ida e volta custou R$ 189.750,00. Em nota, o Sebrae afirmou que não tem qualquer relação com essas viagens.
Futebol, lazer e família
As viagens continuaram em fevereiro e março. Em 18 de fevereiro, o governador e o presidente da Assembleia Legislativa, Amélio Cayres, viajaram para assistir a uma partida da Copa do Brasil entre o Atlético Mineiro e o Tocantinópolis. O voo custou R$ 86 mil.
Em 19 de março, Wanderlei levou filhos, neto e aliados políticos a Brasília, para assistir a Brasil x Colômbia. A viagem custou R$ 89 mil. O deputado estadual Léo Barbosa, filho do governador, alegou que participou de agenda institucional no dia seguinte à partida e que sua presença não implicou aumento de despesas.
Supostas “missões oficiais” sem comprovação
Em 5 de maio, Wanderlei publicou nas redes sociais um vídeo pescando no Lago de Palmas para comemorar o aniversário do filho. No entanto, registros do contrato apontam um voo para Campina Grande (PB) com filha e genro do governador a bordo — ambos sem vínculos públicos. O custo: R$ 165 mil. A justificativa oficial foi uma “missão oficial”, mas não há registros de compromissos públicos.
Outro voo, em 21 e 22 de maio, incluiu trechos entre Palmas, Brasília e Campina Grande, ao custo de R$ 286 mil. Novamente, Rérison, esposa e outros familiares estavam presentes. Curiosamente, em vídeo, o próprio governador disse ter retornado de Brasília a Palmas de carro nesse período.
Encontro familiar e última viagem antes do afastamento
Em 12 de julho, o jatinho foi usado para um deslocamento até Minaçu (GO), onde o governador participou de uma festa da família Barbosa. A bordo estavam Karynne, o filho Rérison e o irmão do governador, Marilon Barbosa, presidente da Câmara de Palmas. O custo foi de R$ 50 mil.
A última viagem do casal na aeronave ocorreu uma semana antes do afastamento, com itinerário que incluiu Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro, e participação em fóruns e feiras. Karynne registrou momentos de lazer na orla carioca. O custo total foi de R$ 228 mil.
Contrato milionário e devolução da aeronave
O contrato entre o Governo do Tocantins e a empresa de táxi aéreo previa despesas fixas de até R$ 20 milhões anuais com a aeronave, de modelo executivo, médio porte e alta performance.
Assim que assumiu, o governador em exercício, Laurez Moreira (PSD), devolveu a aeronave e suspendeu o contrato.
“Nos assusta um pouco saber que um governante faz o uso de uma aeronave de extremo luxo para viagens nacionais. É difícil justificar, principalmente quando existem voos comerciais entre capitais”, afirmou o doutor em Administração Pública Jorge Leal.
Notas oficiais
Deputado Léo Barbosa justificou sua presença em Brasília como parte de uma agenda institucional e alegou que sua participação em eventos após essa agenda não representa ilegalidade nem custos adicionais ao Estado.
O Sebrae Tocantins esclareceu que não participou nem possui relação com as viagens realizadas na aeronave locada pelo Governo do Estado.
Investigação em curso
O uso do jatinho é apenas uma das frentes investigadas pela Operação Fames-19, que mira em possíveis desvios de recursos durante a pandemia. As investigações seguem sob responsabilidade do STJ e podem resultar em novas medidas judiciais.












